Saturday, November 01, 2003
Mais um fantástico dia de sol ao sul, as esplanadas que funcionam nos feriados cheias de turistas loiros, a beberricar pequenas garrafas de vinho branco geladinho e a encherem as crianças de hamburgers e gelados Olá. Na mesma esquina de sempre, o carrinho das castanhas assadas fez hoje pouco negócio. Nada nos pede, nestes dias ainda azuis e transparentes de Verão, o calor da castanha assada, embrulhada em folhas avulsas de velhas listas telefónicas. Em plena baixa da cidade, no topo dum candieiro público, as cegonhas passaram a tarde preguiçando num dos muitos ninhos que fazem a delícia dos estrangeiros e os levam a ser generosos com o pedinte mais convincente da cidade. Há seis anos que o conheço, há seis anos que calcorreia a baixa, pedindo, no idioma que lhe parecer mais certeiro, uma moeda para apanhar o combóio para casa. Já só os estrangeiros caem na esparrela, mesmo sendo a CP a desgraça que é, seis anos é muito tempo para uma viagem de sete quilómetros. A verdade é que, todos os fins de tarde lá vai ele a caminho do combóio, carregado de sacos do supermercado, onde tilintam as garrafas. Já foi empregado de café, não tem mais do que quarenta anos, está-se cagando para as virtudes do trabalho dependente e descobriu que não há nada como criar o seu próprio posto de trabalho, ambulante, sem descontos para o fisco, nem para a segurança social. Também para ele, o prolongamento do Verão Outono adentro é uma mais valia. À sua pequena escala, é mais um exemplo da infinita capacidade portuguesa para o desenrascanço, essa fantástica vontade de chegar onde se quer, seja como for, e que não pode limitar-se a psiquiatras sem carteira ou advogados sem pruridos éticos.