Thursday, December 18, 2003
A música altíssima, os corredores completamente atravancados de gente e de carrinhos de compras, a habitual alucinação colectiva da época. Estou parada num dos corredores dos livros, perdida entre centenas de capas, empurrada por gente que se acotovela, e, como eu, muitas pessoas olham os títulos, lêem as badanas, tentam encontrar o livro certo para oferecer. E de repente, a dois passos de mim, o toque dum telemóvel. Levanto os olhos e de relance vejo um sujeito banal, que atende um telemóvel. Regresso ao livro que tenho na mão e oiço-o dizer "Querida!". Não foi a palavra, foi tudo o que cabia dentro daquela simples palavra. E nela cabia um imenso prazer ao ouvir a voz do outro lado, havia uma segurança, uma alegria, uma felicidade absurda. O homem afastou-se, um homem banal, que eu seria incapaz de reconhecer se nos voltássemos a cruzar. Mas ficou comigo a intensidade daquele sentimento, expresso numa única palavra. E ainda agora me pergunto se alguém, alguma vez, me disse tanto com tão poucas palavras. Que me lembre, não.
Sunday, December 07, 2003
Mais uma lista infindável de coisas para fazer, que vou riscando à medida que arranjo pachorra para as ir despachando, e novas coisas que vão entrando para a lista, que,assim, parece não ter fim à vista. Este frio tira-me a energia indispensável ao combate corpo a corpo, nas lojas, às longas filas de espera nas estações de correios, às simples deambulações sem destino, de montra em montra, em busca daquela última meia dúzia de lembranças que estão por comprar e, o que é pior, por decidir. O carro tem um problema nos travões e a marca está a fazer marcações para o fim de Janeiro. O homem que vinha arranjar os estores, na última sexta-feira, não apareceu e nem se dignou avisar que não vinha. A mulher a dias conseguiu uma casa da câmara e passou a vir trabalhar quando lhe apetece, ou seja, se o apetite sempre foi pouco, agora tenho que me aguentar com o seu verdadeiro fastio ao trabalho. Pilhas de roupa para passar a ferro, uma das tarefas mais odiosas de todas a que uma casa obriga. O que me salva é que há muitos anos adoptei a sábia filosofia africana sobre a rapidez com que se deve atacar as milhentas coisas que há para fazer - leve-leve, que é como quem diz, quanto mais depressa acabares essas, mais depressa surgem outras, porque o trabalho nunca acaba. E é por causa desta postura que me vou poupando ao stress, aguardando que o sol volte a encher a casa de luz e o meu espírito de energia. Até lá, a lista vai diminuindo a passo de caracol e eu estou-me nas tintas para isso. Amanhã é outro dia e, se tudo correr bem, risco mais uma coisita ou duas da lista.
Tuesday, December 02, 2003
Tantos dias sem posts! E tanta coisa que, entretanto, se passou. Chegou o frio a sério, Lisboa estava a confusão do costume, a gripe rondou-me sem sucesso, pelo menos até agora, dois queridos amigos estão,outra vez, confrontados com a necessidade imediata de novos tratamentos de quimioterapia. Fica-se sem palavras, sobretudo quando se sabe que amanhã poderá ser a nossa vez, e se tem consciência, como eu tenho, que as palavras de conforto e ânimo pouco ajudam quando olhamos de frente a nossa própria morte. E é em alturas assim, de uma ansiedade que se pretende manter sob controlo, que cada dia é vivido devagar, cheio de perguntas interiores que tentamos ignorar, mas em que é inevitável fazer balanços, sonhar com o que, provavelmente, não chegaremos a alcançar e imaginar o que teríamos mudado se pudéssemos voltar atrás. E, ainda por cima, este é um período complicado, calendário pré fixado para a alegria natalícia, e a dúvida instala-se como uma dor mansa mas permanente - será que ainda cá estarei para o ano?
Wednesday, November 12, 2003
Fantástica conferência sobre Astrologia pelo Professor norte-americano Alan Oken. A biblioteca municipal de Faro a encher, mais uma vez, o seu auditório para dar a conhecer um dos mestres na matéria, com prestígio internacional e uma extraordinária capacidade de comunicação. E enquanto ele fala, no seu português quase perfeito, sente-se no ar uma energia intensa, que o silêncio absoluto da sala faz circular por dentro de todos e cada um de nós. E não posso deixar de recordar como, há quatro anos, estava eu numa encruzilhada da minha vida, este homem enorme, que nos olha por dentro da alma, mudou radicalmente a minha visão de mim própria, do mundo e do caminho a percorrer. Numa hora e meia, abriram-se-me janelas que não suspeitava que existiam e fecharam-se, atrás de mim, todas as portas que eu julgava importantes, mas que não levavam a sítio nenhum. É certo que estou ainda a começar a andar. Mas o importante é saber que é este o caminho e tê-lo encontrado ao Alan o devo. Foi, pois, muito bom que o Nuno Michaels tenha organizado esta vinda do Alan a Faro. O seu saber, a sua divina inspiração e a luz que projecta no mapa das nossas vidas podem ajudar outras pessoas a encontrar respostas, a despejar carga inútil à viagem fundamental e a acertar o bater do seu coração pela harmonia universal. Noite com nota máxima.
Tuesday, November 11, 2003
Porque será que para os homens há dúvidas que não se põem? Porque lhes é tão fácil separar o corpo da alma, a cama do amor, porque será? Eram estas as perguntas que Sara se fazia, naquela manhã, sentada ao lado dele, a caminho do hotel. Tinham sido meses a recusar a si própria o infinito prazer de estar com ele, de lhe sentir sob a pele a enorme energia do desejo, de mergulhar naquele olhar líquido de mar e de se deixar ir, subindo, subindo sempre, como no mar, a onda de loucura e de calor que sempre os devolvia, ao mesmo tempo, a uma tranquilidade exausta, a uma ternura imensa que desatava as palavras e lhes trazia, pé ante pé, a doce moleza do sono. Era a memória dessa última vez a que Sara recorria agora, muitos meses depois daquela noite, para se convencer que tinha tomado a decisão certa. Afinal, não seria o check in num hotel a estragar esse elo fortíssimo que os unia, independente de distâncias e constrangimentos. Durante toda a viagem ele riu e contou histórias, porque a conhecia bem e sabia que, sob aquela capa de mulher independente e forte, ela era vulnerável e frágil como uma criança. Por isso, ele sempre tinha tido cuidado em não a magoar, não a pressionar, aceitando os mil e um argumentos que ela sempre apresentava para ir adiando esse encontro. Agora, que ela, finalmente, tinha admitido que um hotel era um sítio como outro qualquer para duas pessoas, a viver a centenas de quilómetros uma da outra, poderem amar-se,adormecer,acordar e tomar banho juntas, ele tentava tirá-la daquele silêncio constrangido. E eis que chegaram. Ela sentia um nó no estômago e começava a arrepender-se de ter saltado por sobre todas as dúvidas e resistências. Mas foi tudo muito rápido. Num abrir e fechar de olhos, estavam registados e a caminho do quarto. Ele abriu a porta e deu-lhe passagem. A medo, ela entrou e abriu os olhos de espanto. Era, sem tirar nem pôr, exactamente igual ao seu próprio quarto, na sua própria casa, a centenas de quilómetros de distância. Junto à janela, uma mulher sorridente avançou para Sara e disse-lhe - seja bem vinda. Está em sua casa. Aproveito para lhe dizer que não tem que ter problemas de espécie nenhuma - esse aí é o meu marido, mas creia que não me incomodo nada com o facto de vocês terem uma relação e virem para aqui passar uns dias. Aliás, até tinha pensado perguntar-lhe se não estaria interessada em ficar com ele para sempre.
Sara acordou encharcada em suor. Na varanda do quarto, estava um paraquedista de olho azul, ainda embrulhado no seu paraquedas, que lhe sorria com ar sacana.
Sara acordou encharcada em suor. Na varanda do quarto, estava um paraquedista de olho azul, ainda embrulhado no seu paraquedas, que lhe sorria com ar sacana.
Monday, November 10, 2003
Passaram anos, mas é como se tivesse sido ontem. É que foi, realmente, ao primeiro olhar. Tiro e queda. Aqueles olhos dele, aquela pose distante, aquele gelo profissional... ela não estava preparada para quinze dias de contacto diário com tamanha tentação. Ela, que se considerava uma mulher madura, com vida estável e tranquila e profissão absorvente e de rigor, apaixonou-se ali, naquele primeiro dia, àquele primeiro olhar, como uma adolescente imbecil. Tudo o resto passou à história, dos discursos pouco ficava na memória, escrever o texto diário transformou-se num esforço titânico. E quando o dia chegava ao fim, doze, catorze horas de muita estrada e prazos para cumprir, e ela se estendia na cama de hotel, imaginava como seria se batessem à porta, de repente, e fosse ele e dissesse - e agora? Mas ele nunca bateu. Quinze dias e muitos ensopados de borrego depois, já tinham jantado juntos, rodeados de centenas de pessoas, ela já tinha furado as regras da distância profissional e ele não a tinha travado. Mas estavam tão longe como no primeiro dia. E cada um seguiu o seu caminho. Do dele, ela nada sabia. O seu, estava traçado. E quinze dias depois do fim desses quinze dias juntos, ela terminava o seu casamento. Porque era mentira e ela tinha percebido que não se deseja o que já se tem. No Natal, mandou-lhe um cartão, que só teve resposta dois natais depois. No reencontro, havia uma rosa na mesa. E a urgência dela não era menor. Dele, desaparecera a pose e o gelo profissional. E tudo o que ela sonhara, naquelas noites de insónia e remorso, aconteceu. De então para cá, trocaram-se muitos cartões, mas a paixão nunca teve verdadeiramente uma oportunidade para ser vivida. E ela guardou-a, intacta, como quem guarda uma flor seca entre as páginas dum livro. Ficou sozinha, mas nunca ficou amarga. E aquele turbilhâo, quando estão juntos, é o mesmo turbilhão da primeira vez - tão cheio de vida e de desejo que era um crime gastá-lo sem critério. Por isso, passaram a encontrar-se à mesa do restaurante e conversam horas a fio. Ele não compreende que ela não queira fazer um amor rápido, se o amor na cama era tão bom. Ela não quer perder a memória do que poderia ter sido e nunca foi. Ela percebe que ele nunca percebeu o que verdadeiramente o primeiro olhar dele fez na vida dela. Mas passados estes anos, é esse desejo impossível que guarda como um tesouro.
Sunday, November 09, 2003
Pinto da Costa não convidou o presidente da A.R. para a inauguração do estádio das Antas. Na Sic, Pacheco Pereira apela aos deputados - nem um parlamentar ao estádio do dragão. Sampaio e Durão anunciaram já que não vão. Ferro Rodrigues anunciou que fica na liderança. Manuel Monteiro finalmente voltou a ser lider de qualquer coisa. Bem sei que é o partido da andorinha, mas é melhor que nada. Nada melhora no Iraque e tudo piorou na Arábia Saudita. É a um saudita que os portugueses devem agora a massa que deviam ao fisco e à segurança social. Irá ele contratar o cobrador do fraque para ir de empresa em empresa a sacar o guito? Guito, os portugueses só vão começar a sentir-lhe o cheiro lá para 2006. Portugal cumpre o pacto de estabilidade e Durão diz que a França faz muito bem em não cumprir. O ministro das finanças francesas diz que a receita do governo português para sair da crise é um desastre. Um desastre é o retrato das relações entre advogados e magistrados portugueses. O caso Casa Pia não coiso, nem sai de cima da gente. E se não fosse o recente texto de Álvaro Cunhal, que hoje faz 90 anos, era caso para desanimarmos. Assim, ficámos a saber para onde emigrar quando perdermos completamente a esperança. Eu, cá por mim, vou já marcar viagem para a Coreia do Norte. Sempre gostei de homens com poupa à Elvis e de sapato de tacão alto.